Por Geo Belmonte
Nos últimos dias, voltou a circular uma paródia política inspirada no histórico jingle de Lula, “Lula Lá”, que apresentava aquele retirante nordestino como “apenas mais um Silva”. Na provocação dos adversários, a história ganha outra versão, associando Lula à corrupção e às denúncias que marcaram a trajetória de seus governos.
É legítimo que exista oposição. É legítimo criticar Lula, seus governos, o PT e tudo aquilo que aconteceu ao longo dessas décadas. Democracia também é cobrança.
Mas existe uma coisa que nenhum jingle consegue apagar: a memória de quem viveu o Brasil de antes.
Quem conheceu o Brasil das décadas de 1970, 1980 e 1990, especialmente no Nordeste, sabe que a discussão não pode ser resumida simplesmente a direita contra esquerda.
Havia um Brasil no qual crédito, consumo e determinadas oportunidades estavam muito mais distantes das famílias pobres.
No Sertão, então, essa realidade era ainda mais dura. Muitas famílias dependiam da agricultura e olhavam para o céu esperando chuva. Em períodos difíceis, faltava emprego, faltava dinheiro e, em muitas casas, faltava comida.
Antes de Lula chegar ao Palácio do Planalto, o Brasil passou pelo governo Fernando Henrique Cardoso. E é preciso reconhecer aquilo que considero importante naquele período. A estabilização da moeda, por exemplo, foi fundamental para o país. Lula recebeu um Brasil que já havia passado por transformações importantes e deu continuidade a algumas delas.
Mas fez também as suas escolhas.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das explicações para a dimensão política que Lula alcançou.
A partir de 2003, o pobre passou a participar de maneira muito mais intensa de um mundo que antes parecia reservado a outras classes.
O crédito chegou com mais força. O financiamento se popularizou. Gente que nunca imaginou comprar uma motocicleta conseguiu financiar uma. Outros compraram seu primeiro carro, abriram um pequeno comércio, reformaram a casa ou começaram algum negócio.
Isso teve consequências.
Muita gente soube aproveitar a oportunidade e cresceu. Outros assumiram dívidas que não conseguiram pagar. O crédito também cobra seu preço e o endividamento das famílias é uma realidade que não pode ser escondida.
Mas existe uma diferença fundamental entre não ter uma oportunidade e ter uma oportunidade e não conseguir aproveitá-la.
Lula abriu portas para uma parcela da população que durante muito tempo sequer chegava perto delas.
A transferência de renda também mudou relações sociais que muita gente prefere esquecer.
Houve um tempo em que uma pessoa com uma condição financeira um pouco melhor podia contratar uma mulher pobre para lavar roupa, limpar uma casa ou realizar um serviço pesado pagando praticamente aquilo que quisesse. Muitas aceitavam não porque consideravam aquele pagamento justo, mas porque precisavam colocar comida dentro de casa.
Quando uma família passa a ter garantido pelo menos um mínimo para comprar alimento, alguma coisa muda.
Ela passa a poder dizer não.
E talvez uma das maiores transformações sociais seja justamente esta: dar a alguém que sempre viveu dependendo dos outros o direito de escolher.
O Bolsa Família não tornou ninguém rico. Nunca foi essa a questão. Mas ajudou a garantir uma renda mínima para milhões de famílias e colocou algum poder de decisão nas mãos de pessoas que antes estavam completamente vulneráveis.
Isso incomodou muita gente.
Não necessariamente porque alguém estivesse sustentando pessoas para que não trabalhassem, como tantas vezes se dizia, mas porque aquela mão de obra extremamente barata passou a ter alguma capacidade de escolha.
É por isso que acredito que existe uma diferença entre analisar Lula pelos acontecimentos políticos posteriores e analisar o fenômeno Lula dentro da história brasileira.
Lula pode e deve ser criticado. Houve escândalos, erros políticos, problemas econômicos e decisões de governo que precisam fazer parte de qualquer análise séria de sua trajetória. Não precisamos apagar uma parte da história para reconhecer a outra.
Mas também não se pode apagar o Brasil que existia antes de 2003.
E aqui aparece um desafio interessante para os adversários de Lula.
Uma pessoa que nasceu em 2003 completa 23 anos em 2026. Essa geração não conheceu pessoalmente aquele Brasil. Não enfrentou a inflação das décadas anteriores, não viveu a realidade social dos anos 1980 e 1990 e não consegue comparar pela própria experiência o antes e o depois.
Para essa geração, Lula já faz parte do cenário político desde que ela nasceu.
É justamente entre os mais jovens que uma narrativa diferente sobre o passado pode encontrar mais espaço.
Porém, existe algo que nenhuma campanha eleitoral controla completamente: a memória familiar.
Os filhos podem não ter vivido aquilo que seus pais viveram, mas escutam suas histórias.
Escutam o pai contar quando comprou a primeira motocicleta. A mãe lembrar quando conseguiu melhorar a alimentação dentro de casa. O pequeno comerciante recordar quando começou seu negócio. O agricultor contar como era sobreviver no Sertão décadas atrás.
É por isso que acredito que a força de Lula não está apenas em um partido, em uma ideologia ou em um jingle.
Está também na comparação que milhões de brasileiros fazem entre períodos diferentes de suas próprias vidas.
Podem criar “mais uma propina”. Podem ressuscitar “mais um Silva”. Podem surgir dezenas de outros jingles até a eleição.
Isso faz parte da disputa política.
Mas eleição nenhuma acontece somente no presente. O passado também vota.
E, goste-se ou não de Lula, considero difícil negar o tamanho que ele alcançou na história política brasileira das últimas décadas. Para mim, entre os estadistas brasileiros desse período, foi aquele que conseguiu construir a ligação mais profunda com as camadas populares.
Não porque tenha resolvido todos os problemas do Brasil.
Não resolveu.
Não porque seus governos tenham sido perfeitos.
Não foram.
Mas porque milhões de pessoas que durante décadas estiveram do lado de fora passaram a acreditar que também poderiam entrar.
E talvez seja exatamente por isso que, tantos anos depois, aquele “Silva” continue sendo tão difícil de derrotar apenas tentando apagar sua história.


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