Veja: A troca de nome de São João dos Campos para Mirandiba

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“Mirandiba” procede do tupi guarani que significa “porco queixada”. Pelo decreto-lei nº 235 de 9 de dezembro de 1938, Anexo nº 1, o topônimo de São João de Campos passou a chamar-se Mirandiba, durante o Estado Novo, Governo de Getúlio Vargas, por sugestão do jornalista Mário Melo. A mudança de nome não agradou aos São-Joanenses e geraram contestações, até mesmo um dos seus principais representantes, o capitão Eliseu Campos, foi ao Recife reivindicar o antigo nome.

Porém, tempos depois, o responsável pela mudança do topônimo, o jornalista Mário Melo foi a Mirandiba, e em artigo publicado no “Jornal Pequeno”, Ed. 107, paginas, 1 e 4 de 13/05/1942  historiou aquela sua visita:          


“Em minha recente viagem ao sertão, passei pela Vila de Mirandiba, sede do 3º distrito do município de Belmonte. O automóvel parou numa venda da esquina. Era a da pessoa de mais importância da localidade: o capitão Eliseu Campos.

Conheci-o já de nome, pelo esperneio que dera, quando a localidade passou de São João (duplicata) para Mirandiba, vocábulo indígena. 

Feriu logo o assunto:

- Isto aqui era uma fazenda. Povoei, com meu sogro que se chamava João Barbosa de Barros. E batizei como São João de Campos, porque sou da família Campos. Por que o senhor alterou o nome?

- Por força da lei, para desfazer a duplicata.

- Pois quem me pergunta o significado de Mirandiba, traduzo: Mário Melo Besta.

Foi assim a recepção...

A certa altura falou-se na guerra.

O velhinho, que é magro e chocho, foi ao interior do estabelecimento e tirou de uma branca mochila um espadim, em que havia uma cobra como emblema:

- Sou capitão cirurgião duma brigada de reserva da Guarda Nacional e sinto-me com vinte anos para defender esse torrão abençoado que se chama Brasil. Fui ao Recife levar minha patente ao coronel Barata, a quem disse (e lá veio o refrão) que me sentia com vinte anos para defender esse torrão abençoado que se chama Brasil.

- E o coronel Barata?

- Camaradão. Registrou a patente e disse que voltasse porque, na hora “H” mandava chamar-me. Vou ganhar 4.230$000 por mês, porque me sinto com vinte anos...

- Mas capitão, o cirurgião não briga. Seu lugar é no hospital de sangue, para operar os feridos. Que sabe de cirurgia?

- Não sei fazer nem uma garrafada. Mas o que eu quero é brigar de verdade. Se o general mandasse para aqui um sargento para dar uma hora de instrução militar, sem prejuízo do trabalho de cada um, eu arrumava era um batalhão.

- Capitão, vejo que o senhor é valente. Bem me preveniram que eu não passasse por Mirandiba, porque se o senhor soubesse, havia o risco dum tiro de trás dum pé de pau.

O capitão riu-se e disse-me, em ar de camarada, batendo no ombro:

- Isso já passou. Mas aquele doutor Agamenon Magalhães não sabe guardar um segredo. Quando fui ao Recife protestar contra o nome de Mirandiba, estava eu danado de raiva. Mas estou até gostando de você. Vamos tomar um café.

E a despedida, em paz:

- Conto com sua proteção para esta terra, tenha o nome de Mirandiba ou de São João de Campos. E até o Recife quando eu for chamado para defender este torrão abençoado que se chama Brasil.”


Por Valdir José Nogueira de Moura




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